Dá pra jogar RPG no navegador, sem baixar nada?

Eu venho de uma época em que começar a jogar dava trabalho. Era o CD-ROM que arranhava na hora errada, a instalação de quarenta minutos, o "espaço insuficiente no disco", o driver de vídeo que faltava, o jogo que rodava no computador do amigo mas não no seu. Entre a vontade de jogar e o jogar de fato, existia sempre uma pequena montanha a escalar. Por isso, quando alguém me pergunta se dá pra jogar um RPG de verdade direto no navegador, sem baixar coisa nenhuma, eu entendo a desconfiança na pergunta. E a resposta curta é uma que teria feito o meu eu adolescente sorrir.

Então, dá pra jogar RPG no navegador sem baixar nada?

Sim. Hoje um jogo completo, com gráficos, som, combate e progresso salvo, roda dentro da própria aba do navegador, no computador ou no celular, sem instalação, sem loja de aplicativos e sem ocupar espaço no seu aparelho. Você abre um link e joga. A montanha entre a vontade e o jogo praticamente sumiu.

Como o navegador virou um lugar de jogar de verdade

Nem sempre foi assim, e vale entender o que mudou, porque é isso que separa a promessa vazia da realidade. Durante anos, jogo de navegador era sinônimo do Flash, aquele plugin que rodava os joguinhos de portal. O Flash foi aposentado de vez no fim de 2020, e muita gente apostou que os jogos de navegador iriam junto para o cemitério. O que se viu foi o inverso: os próprios navegadores cresceram e passaram a fazer, de forma nativa, o que antes exigia um plugin.

Nota pessoal: toda vez que penso em Flash, lembro do Papai Noel e das renas cantando "Basket Case", do Green Day.

Três tecnologias sustentam isso hoje, e dá pra explicar sem virar aula de computação. O HTML5 monta a estrutura da tela, os botões, as caixas, o esqueleto do jogo. O WebGL conversa direto com a placa de vídeo do seu aparelho para desenhar imagem em duas ou três dimensões, com aceleração de hardware, a mesma ideia por trás dos gráficos de um jogo instalado. E o WebAssembly, talvez a peça mais importante, permite rodar no navegador código escrito em linguagens pesadas como C++ e Rust em velocidade próxima da de um programa nativo. Segundo a própria Mozilla, criadora do Firefox, o WebAssembly nasceu justamente para resolver os casos que o navegador antes não dava conta, como jogos 3D e edição de vídeo, entregando desempenho perto do nativo. Não à toa, motores de jogo consagrados como Unity e Godot já exportam direto para o navegador.

Traduzindo: o navegador deixou de ser um lugar de passatempo e virou uma plataforma de jogo pra valer.

Viajante de fantasia abrindo um livro luminoso numa estrada ao entardecer

"Mas jogo de navegador não é fraquinho?"

Essa é a dúvida honesta de quem lembra dos joguinhos de Flash. O preconceito era justo naquela época e simplesmente não acompanhou o que o navegador virou. É a mesma distância que separa o celular que só fazia ligação e jogava cobrinha do aparelho que hoje roda o seu banco, a sua câmera e as suas fotos na nuvem. O objeto tem o mesmo nome, "celular", mas virou outra coisa. Com o navegador foi igual. Ele continua sendo "o navegador", só que por baixo é uma máquina capaz de rodar um jogo com personagem, combate, física e mundo, sem pedir nada instalado.

A prova: até o D&D roda no navegador

Se ainda soa bom demais, veja quem já joga assim. O Roll20, plataforma para jogar RPG de mesa online, é parceiro oficialmente licenciado da Wizards of the Coast, dona de Dungeons & Dragons, desde 2016, e roda inteiro no navegador, sem nada para baixar. Ou seja, mesas de D&D acontecem dentro de uma aba todos os dias, com a bênção da própria dona do jogo.

E tem prova ainda mais direta para quem gosta de jogar sozinho. Em 2023, a própria Wizards lançou o "Before the Storm", uma aventura oficial de escolha própria, jogável de graça no navegador, em que você pega um de cinco personagens prontos e atravessa uma história que ensina as regras da 5ª edição enquanto joga. Um livro-jogo digital, oficial, no navegador, feito para apresentar D&D a quem chega. Se a maior marca de RPG do mundo escolheu o navegador para dar as boas-vindas, quem sou eu para ignorar isso!?

Por que jogar no navegador é melhor pra você?

O jeito mais fácil de sentir a vantagem é pensar em como você ouve música hoje. Antigamente, ter uma música significava comprar o CD, guardar a caixinha, e mais tarde baixar o arquivo e torcer para caber no aparelho. Hoje você abre o aplicativo e a música toca, no celular, no computador, na casa de um amigo, e continua exatamente do ponto em que você parou. Você não possui mais uma pilha de arquivos, pastas, você tem acesso imediato. Jogar no navegador é isso, aplicado ao jogo. Não há o que instalar nem atualizar, não se ocupa memória do aparelho, e a mesma aventura te espera aberta seja qual for a tela em que você sentar.

Some a isso a liberdade de ritmo. Um jogo assim se encaixa em quinze minutos na fila do banco ou numa maratona de três horas no fim de semana, porque você para quando quiser e volta do ponto exato onde estava. É o oposto do compromisso pesado de baixar, configurar e reservar a noite.

E isso por que nem entrei na questão de jogar em grupo, reunir pessoas dispostas, com os mesmos horários livres e estarem lá sempre que você quiser.

E isso não é uma aposta de nicho, é para onde o hábito das pessoas está indo: querer abrir e jogar, sem instalar. Um sinal vizinho é o jogo na nuvem, que é uma tecnologia diferente, em que o jogo roda num servidor distante e chega até você transmitido pela internet; mesmo assim, pela mesma vontade de não instalar nada, as projeções da Statista falam em algo perto de dez bilhões de dólares e cerca de meio bilhão de jogadores por volta de 2030. O jogo no navegador surfa esse mesmo hábito, com a vantagem de rodar ali mesmo, no seu aparelho, sem depender de um servidor distante desenhar cada quadro pra você.

Aventureiro descansando junto a uma fogueira com um livro de aventura no colo

E a internet? E roda num celular comum?

Duas dúvidas justas de quem vem do "instala e joga offline". Sim, jogar no navegador pede conexão, do mesmo jeito que ouvir música num aplicativo de streaming pede: enquanto você joga, precisa estar conectado, e em troca não baixa nada nem ocupa espaço no aparelho. E não, você não precisa de um computador de gamer. Um livro-jogo como este roda liso num celular ou num notebook comum, porque o peso está na história e nas escolhas, não em gráfico pesado de tempo real, fps, 3d...

É exatamente isso que o Mysteries & Perils é

Eu construí o Mysteries & Perils dentro dessa ideia, e com uma teimosia: que jogar no navegador não podia significar jogar algo raso. Ele é um livro-jogo online, mas antes de tudo é um jogo de RPG de verdade. Você cria a sua conta, monta um personagem, distribui atributos, entra numa aventura ilustrada, luta em combate por turnos rolando os dados, melhora os seus itens e vê a ficha evoluir de nível em nível. Tudo isso na aba do navegador, no computador ou no celular, com o seu progresso salvo esperando por você. Nada pra baixar, nada pra configurar, nenhuma montanha entre a vontade e a aventura.

Tela do Mysteries & Perils, um RPG jogado direto no navegador

O menino que esperava o CD instalar teria adorado. Se essa história de abrir e simplesmente jogar também fala com você, entre na lista de espera e acompanhe a construção de perto.

Por Mario, criador do Mysteries & Perils, fã de Baldur's Gate 1 e iniciado nos livros-jogo.

Fontes e leitura de referência

← Voltar ao blog

Discord