Como jogar RPG sozinho, mesmo sem grupo

Existe uma dor que todo mundo que ama RPG conhece. A vontade de jogar bate, e aí vem a parte mais difícil, que nunca foram os dados: juntar o grupo, alinhar a agenda de quatro adultos, achar um mestre disposto, marcar a bendita noite de sexta. Eu conheço essa dor dos dois lados, porque comecei no RPG jogando sozinho, com um livro-jogo aos 8 anos, muito antes de sentar numa mesa de verdade. E tenho uma boa notícia pra você: dá, sim, pra jogar RPG sozinho, e não é prêmio de consolação.

Dá pra jogar RPG sozinho?

Dá, e de várias formas. Jogar RPG sozinho, o chamado RPG solo, é viver uma aventura de interpretação sem depender de um grupo nem de um mestre humano. E dizer humano, não significa que o contrário seja "IA", mas sim um livro, uma narração, um audiobook, etc. Você pode fazer isso de quatro formas: com um livro-jogo, com sistemas criados para um jogador só, com oráculos que assumem o papel do mestre, ou com jogos digitais que rodam no navegador. Vou explicar cada uma.

E não é modismo recente. O próprio Gary Gygax, cocriador de Dungeons & Dragons, publicou regras de geração de masmorra para jogar sozinho já em 1975, na revista The Strategic Review, e elas depois foram parar no Livro do Mestre de AD&D. Jogar sozinho acompanha o hobby desde o berço. O que mudou é que, de uns anos para cá, principalmente depois que a pandemia deixou tanta gente sem poder marcar mesa, esse cantinho quieto virou um dos segmentos que mais crescem no RPG, com uma comunidade enorme reunida em espaços como o r/Solo_Roleplaying, no Reddit, e centenas de jogos independentes publicados em plataformas como a itch.io.

Por que alguém joga RPG sozinho?

A razão mais óbvia é a que abriu este texto: nem sempre dá para reunir o grupo. Mas quem joga solo descobre rápido que os motivos vão bem além do "não tinha com quem jogar".

  • O rumo é seu. Nos caminhos mais abertos, como os oráculos, você conduz e a história vai aonde a sua curiosidade mandar; num livro-jogo, você trilha o seu próprio caminho por uma história escrita, com escolhas que pesam. De um jeito ou de outro, ninguém decide por você.
  • O seu ritmo. Dá para jogar dez minutos ou três horas, pausar no meio de uma masmorra e voltar semana que vem. A aventura te espera.
  • Zero logística. Sem agenda, sem chat do grupo, sem remarcar. A mesa está montada quando você quiser.
  • Um espaço criativo e calmo. Muita gente usa o RPG solo como um hobby quase meditativo, de escrever e imaginar no próprio canto. É uma delícia para quem gosta de mergulhar a sós numa história.
  • Um jeito de treinar. Jogar solo é uma das melhores formas de aprender um sistema novo ou de praticar para ser mestre, sem a plateia.

As formas de jogar RPG sozinho

Existem quatro caminhos principais, do mais simples ao mais aberto.

1. Livros-jogo (a porta de entrada mais fácil)

O livro-jogo é o RPG solo mais direto que existe: a aventura já vem pronta, o texto para e te dá as escolhas, e alguns ainda trazem ficha e dados embutidos. É por onde muita gente começou, incluindo eu. Se você quer sentir o gostinho de jogar sozinho sem preparar nada, comece por aqui. (Escrevi um guia separado sobre o que é um livro-jogo e como ele funciona.)

2. Sistemas feitos para jogar sozinho

Existem RPGs desenhados para rodar sem mestre, o que os torna perfeitos para o solo. O mais conhecido é o Ironsworn, do Shawn Tomkin, gratuito em PDF, em que a história é empurrada pelos juramentos que o seu personagem faz. Há também jóias como Thousand Year Old Vampire e Five Parsecs From Home, cada um com o seu clima. São ótimos porque já nascem pensados para você jogar sem mestre.

3. Oráculos, o mestre em forma de tabela

É aqui que o solo moderno fica realmente interessante. Um oráculo (também chamado de emulador de mestre) é uma ferramenta que faz o papel do mestre: você faz uma pergunta ("tem alguém me esperando atrás da porta?"), rola um dado, consulta a tabela e ela responde, muitas vezes num simples sim ou não, jogando reviravoltas na sua história. O oráculo mais famoso é o Mythic Game Master Emulator, da Tana Pigeon (Word Mill Games), com o seu sistema de sim/não, eventos aleatórios e um "Fator Caos" que mantém a trama imprevisível. Com um oráculo, dá para pegar praticamente qualquer RPG de mesa e jogar sozinho. No Brasil, a cena solo também tem os seus, como o MEMe e o 2d10 Solo, criados pela comunidade.

4. Apps e jogos no navegador

E há o caminho digital, que junta a comodidade de não preparar nada com a imersão de arte e som. Jogos de RPG solo no computador, no celular e, cada vez mais, direto no navegador, entregam a experiência mastigada: as escolhas, os dados e o personagem já estão ali, prontos. É a forma mais acessível de começar hoje.

Mas se eu decido tudo, como é que tem surpresa?

É a dúvida mais comum de quem nunca jogou solo, e cada caminho responde de um jeito. Nos oráculos, a surpresa vem do acaso: você pergunta e o dado responde coisas que você não planejou, então a história te surpreende de verdade. No livro-jogo, quem guarda o que vem pela frente é o próprio livro, que faz o papel do mestre. Você escolhe um caminho sem saber o que há na próxima página, do mesmo jeito que não sabe o que o mestre preparou numa mesa. O truque é antigo: o próprio Gygax sugeria lacrar as respostas em envelopes para não se entregar. Você decide as suas ações, não o que o mundo esconde de você.

Como começar a jogar RPG sozinho hoje

Se você nunca jogou solo, o meu conselho é não complicar. Pegue um livro-jogo ou o Ironsworn (que é de graça) e simplesmente comece; a estrutura deles te ensina jogando. Tenha um caderninho ou um bloco de notas do lado para anotar o que acontece, porque é anotando que a história ganha corpo. E, o mais importante, não trave tentando fazer "certo": no RPG solo, quem decide o que é divertido é você. Erre, teste, siga a sua curiosidade. A aventura é sua.

O que você ganha, e o que abre mão

Vou ser honesto, porque jogar solo não substitui tudo. Você abre mão da bagunça boa da mesa: a risada com os amigos, a jogada absurda que ninguém esperava, a energia de estar todo mundo junto. Isso o solo não entrega, e tudo bem. Em troca, você ganha liberdade, ritmo e a possibilidade de aventurar hoje, agora, sem depender de ninguém. Na minha visão, os dois convivem numa boa: o solo é só mais uma porta sempre aberta para o hobby que a gente ama, para os dias em que a mesa não pode acontecer.

E se você quer a versão mais fácil dessa porta, sem preparar nada e sem instalar nada, o Mysteries & Perils é a minha aposta: um livro-jogo de RPG que você joga direto no navegador, sozinho, no seu tempo. [Entre na lista de espera] e acompanhe a construção.

Por Mario, criador do Mysteries & Perils, fã de Baldur's Gate 1 e iniciado nos livros-jogo.

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